“Pretendo equilibrar a preservação da nossa tradição com uma visão transformadora e inovadora”
Ao assumir a direção da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC), Marco Pereira privilegia a continuidade e a transformação. Para o futuro, à frente de uma instituição com 45 anos de história, traça como prioridades a aposta na investigação e na internacionalização, assim como a adaptação aos desafios da transformação digital e da sustentabilidade, sublinhando que só assente num princípio de atuação coletiva e inclusiva pode ser criada “uma escola mais coesa e competitiva”.
Perspetiva Atual: A Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC) tem construído um legado que atravessa gerações. Tendo em vista esta herança académica e institucional, quais são, atualmente, os seus principais objetivos?
Marco Pereira: Referi na minha tomada de posse, a 29 de outubro do ano passado, que a FPCEUC é, hoje, uma Faculdade com bastantes provas dadas. Precisamente por causa do legado que herdei, procurei que o meu programa de candidatura a Diretor refletisse uma visão comprometida com a excelência no ensino e da investigação, bem como com uma transferência de conhecimento sólida e de valor acrescentado, aliada à sustentabilidade, responsabilidade social e, obviamente, de desenvolvimento institucional. E foram, precisamente, estas as dimensões que incluí nesse programa.

Pretendo equilibrar a preservação da nossa tradição com uma visão transformadora e inovadora. Há alinhamento com as metas institucionais da UC, mas integra também práticas inovadoras, pelo menos assim espero, que visam fortalecer o papel da FPCEUC no ensino e na investigação, contribuindo para o progresso da saúde, educação e bem-estar social e global. E obviamente, tenho como prioridade a valorização de todas as pessoas da comunidade FPCEUC e da sua pluralidade. Só assente num princípio de atuação coletiva e inclusiva, é que docentes, investigadores, corpo técnico e estudantes podem criar uma escola mais coesa e competitiva.
PA: Para quem considera que a Psicologia e as Ciências da Educação estão ligadas à vida, em que medida é que estas áreas ajudam a interpretar comportamentos, contextos e escolhas com maior profundidade e relevância?
MP: A FPCE é uma faculdade marcadamente humanista que cultiva a ciência sobre o comportamento humano nas suas mais diversas expressões. Mas, nesta pergunta, acrescento também o Serviço Social. Em rigor, penso que se enquadram por mérito próprio nas ciências sociais e humanas e logo aqui temos algumas das dimensões fundamentais da vida e da qualidade de vida: o bem-estar psicológico, as relações pessoais e interpessoais, os contextos mais próximos ou mais distais em que as pessoas vivem e trabalham (família, escola, organizações) e até à dimensão mais espiritual, não querendo restringir apenas à dimensão religiosa). Estas três áreas conhecem muito profundamente o ser humano e os seus pensamentos, emoções e comportamentos.
PA: No que diz respeito à oferta formativa, ao nível dos três ciclos de formação, que cursos são oferecidos pela faculdade?
MP: A FPCEUC dispõe de uma oferta formativa diversificada nas suas três áreas do saber, oferecendo 3 cursos de 1º ciclo (Licenciaturas em Psicologia, Ciências da Educação e Serviço Social), 14 cursos de 2º ciclo (mestrados) nas três áreas, e 5 cursos de 3º ciclo (o Doutoramento em Psicologia e o Doutoramento em Ciências da Educação, assim como três cursos de doutoramento interuniversitários nas áreas da Psicologia da Educação e Psicologia Clínica – Psicologia da Família e Intervenção Familiar – estes dois em parceria com a Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa – e Serviço Social, em parceria com a Universidade Católica).
PA: Esta instituição é reconhecida pela sua capacidade de atrair estudantes de diferentes regiões do país e do mundo pelo que, no domínio da internacionalização, mantém acordos de mobilidade com diversas universidades de prestígio. Qual é a importância destes protocolos para o ensino e que oportunidades de mobilidade académica existem?
MP: A internacionalização é um processo essencial para o fortalecimento das universidades no contexto global e não podia de deixar de ser importante também para a FPCEUC, que tem acordos com um vasto número de instituições. Ao promover redes e parcerias internacionais académicas e científicas, e sobretudo com instituições de reconhecido prestígio (na Europa e América, mas também no vasto espaço da Lusofonia), bem como incentivar a mobilidade de estudantes, docentes, investigadores e corpo técnico, sentimos que reforçamos a qualidade do ensino, da investigação e do conhecimento que estamos a transferir para a sociedade. Além disso, entendo que através da mobilidade de estudantes, estes têm a oportunidade de realizar um período dos seus cursos em ambientes universitários estrangeiros, ampliando os seus horizontes em todas as valências da sua vida, mas também a qualidade da sua formação e do seu currículo académico.
PA: Com a nova direção dá-se continuidade ao legado existente, mas com a introdução de algumas alterações. Que mudanças foram implementadas?
MP: No meu programa de ação defini, quase de imediato, que se tratava de um programa de assumida continuidade, e propus um conjunto de ações que procuram consolidar as linhas de orientação estratégica e o percurso já iniciado pela anterior Direção, liderada pela Professora Maria Paula Paixão, e na qual fui Subdiretor, mas promovendo simultaneamente novos avanços, essenciais para atingir patamares de qualidade mais elevados e consistentes. E isto foi tendo em consideração o que são os desafios atuais do ensino superior, desde a transformação digital e inteligência artificial até à crescente globalização do ensino superior. E foram reforçadas dimensões que penso que são contemporâneas neste contexto, como a sustentabilidade e a responsabilidade social, e concretamente, o ambiente e a ação climática, a cidadania, igualdade e a inclusão.
Isto é importante, não só na nossa atuação, como também na nossa oferta educativa. A título de exemplo, a nossa iniciativa “Quando o laranja também quer ser verde ou a construção de uma FPCE verde”, centrada na sustentabilidade ambiental e na mobilização da comunidade académica, em torno de uma cultura organizacional mais ecológica e consciente, venceu o Prémio de Melhor Boa Prática na Semana da Qualidade da UC.
Do ponto de vista da oferta formativa, por exemplo, temos um curso de mestrado especificamente vocacionado para estas dimensões (o Mestrado em Educação Especial e Sociedade Inclusiva).
PA: Num setor cada vez mais competitivo, a diferenciação da oferta formativa é essencial para atrair e preparar os estudantes. O que distingue a formação oferecida pela FPCEUC e como capacita os estudantes para os desafios do mercado de trabalho?
MP: Eu entendo que um ensino de elevada qualidade tem a capacidade de atrair os melhores estudantes na procura de concretização dos seus objetivos pessoais e profissionais. Não tenho a menor dúvida que a FPCEUC é uma referência nacional na formação pré e pós-graduada nas nossas três áreas, que tem sistematicamente preenchido todas as vagas no Concurso Nacional de Acesso e tem revelado uma elevada procura pelos seus cursos de mestrado e de doutoramento. Por exemplo, o curso de Psicologia é o que tem o maior índice de procura na UC. Por isso, um diferenciador é, sem dúvida, a qualidade do ensino. E depois, naturalmente, é termos uma oferta formativa de excelência, atual e em permanente atualização, numa lógica de articulação com a investigação que é produzida na FPCEUC, ajustada às necessidades da comunidade envolvente e, sobretudo, que responda aos desafios societais contemporâneos.

PA: No ano passado, foram desenvolvidos projetos como o CONCILIARE, que aborda questões culturais, e o BRAVE-WOW, que se foca na violência no trabalho. Que outros projetos de investigação se encontram atualmente em curso?
MP: Esses projetos continuam a ser desenvolvidos. São projetos plurianuais, com financiamento europeu, que continuam em curso, e que são liderados por docentes da FPCEUC. Mas temos outros projetos em curso, também com o mesmo tipo de financiamento, como é o caso do PROTEMO (focado nas dinâmicas emocionais das políticas de proteção numa era de insegurança) e o KEEPCARING (focado no bem-estar dos profissionais de saúde). A respeito da investigação, não posso deixar de referir também o Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC), unidade de I&D sediada na Faculdade, que continua na vanguarda da investigação básica e aplicada em Psicologia. Em 2025, o CINEICC foi novamente avaliado com Excelente pela FCT, tendo sido o centro de investigação que captou o maior volume de financiamento nacional.
PA: No Encontro Nacional de Profissionais de Ciências da Educação, que se realizou em abril, que temas estiveram em destaque e que participantes e partilhas marcaram o evento?
MP: O Encontro Nacional de Profissionais de Ciências da Educação foi uma organização das coordenações dos nossos cursos de Licenciatura e de Mestrado em Ciências da Educação, que tinha como objetivo reforçar o reconhecimento social, cultural e institucional da ampla profissionalidade das Ciências da Educação. Este foi um evento importante por vários motivos. Por um lado, num contexto atual marcado por profundas transformações – e polarizações – sociais, culturais e tecnológicas, como é o caso da Inteligência Artificial, é fundamental que exista uma análise crítica dos desafios que se colocam aos sistemas educativos e aos seus atores. E aqui, os profissionais de Ciências da Educação têm um papel fulcral.
Por outro lado, numa altura em que estamos a refletir na Faculdade sobre as Ciências da Educação como área formativa, com vista à sua consolidação enquanto área do saber, mas pensando também no seu potencial de inovação na resposta às necessidades sociais e educativas emergentes, e particularmente porque estamos a iniciar o processo de acreditação pela A3ES dos cursos das Ciências da Educação, este encontro foi um fórum privilegiado para a partilha de reflexões e experiências para as Ciências da Educação contemporâneas, sobretudo porque incluiu não apenas profissionais que atuam nesta área em diferentes campos de atuação, mas incluiu também Diretores de Cursos de Licenciatura e Mestrado de Faculdades e escolas congéneres, o que tornou o evento um espaço e um momento de grande importância para a Faculdade e para esta área.
PA: A FPCEUC assinalou recentemente o seu 45.º aniversário. Que marcos e conquistas mais o orgulham? Quais são as perspetivas para o futuro?
MP: O 45º aniversário foi a confirmação de que a FPCEUC é hoje uma Faculdade com bastantes provas dadas, como comecei por referir. Somos uma referência na formação pré e pós-graduada nas três áreas do saber que ministramos, oferecemos um ensino diferenciador, atual e em permanente atualização, bem como investigação inovadora e de valor acrescentado para as diferentes comunidades que servimos, e de que é um excelente exemplo o nosso Centro de Prestação de Serviços à Comunidade.
Esta é a base segura de uma história de 45 anos de reconhecido prestígio e sem dúvida atesta a sólida preparação da FPCEUC para responder aos desafios atuais nas áreas da saúde, neurociência, educação, justiça, organizações e do sector social, mas também aos desafios emergentes, que sabemos que são muitos e também estes com grande potencial disruptivo.

